A Inflação da Droga (Legalizada, por enquanto)
Ontem, enquanto eu cumpria meu ritual de financiador da indústria farmacêutica, fui brindado com a “consultoria estratégica” do atendente. Com aquele olhar de quem guarda as chaves do cofre de Pandora, ele me alertou:
Olhei para o balcão, já devidamente decorado com caixas suficientes para abrir minha própria filial da Anvisa, e o pensamento foi inevitável: se eu seguir esse conselho e entupir a sacola, não chego à esquina.
A cena já brotou pronta na minha mente: eu, saindo da loja com o passo firme de quem carrega um tesouro químico, e a polícia abordando: — “Mãos ao alto, meliante! O que temos nessa sacola? Sabíamos que esse disfarce de ‘professor de bengala’ não enganava ninguém! Preso em flagrante por porte de entorpecentes!”
É a ironia máxima da modernidade: você tenta cuidar da saúde e acaba com cara de quem está operando a logística de um cartel.E o toque de mestre no roteiro do mundo: a explicação para o rombo no meu bolso é sempre geográfica. Fazem guerra lá onde Judas perdeu as botas, e quem fica descalço aqui — e com a pressão alta pelo preço do remédio — sou eu.
A geopolítica é fantástica: o míssil cai lá, mas o estilhaço atinge diretamente a prateleira de anti-hipertensivos do bairro. Pelo visto, a única coisa que não sobe com a guerra é a paciência de quem precisa de “estratégia” até para comprar um analgésico.


