Imagine uma mesa. Em volta dela, educadores. No centro, não um projeto pedagógico, não um plano de ação, mas um bilhete invisível, pairando como entidade metafísica. É ali que começa o espetáculo.
🎭 A abertura: quando a pedagogia vira termômetro político
A coordenação abre o jogo com um diagnóstico grave: “Está complicado.” Tradução livre, versão institucional: O problema não é pedagógico, é comportamental — e tem gente se comportando mal fora do script. Surge então a palavra mágica: panelinhas. Nada une mais uma equipe do que acusar parte dela de se unir demais. Aqui, a pedagogia já saiu discretamente pela porta dos fundos. Entra em cena o clima organizacional, esse ente abstrato que sempre adoece, mas nunca tem prontuário médico.
🤝 O aliado espontâneo (ou nem tanto)
Como manda o manual invisível das reuniões tensas, alguém sente o cheiro de oportunidade no ar e decide ajudar — a gestão, claro. O discurso vem pronto: reconhecimento, gratidão, elogios cuidadosamente distribuídos. É o clássico movimento psicológico do alinhamento preventivo: Se há conflito, melhor deixar claro de que lado estou antes que alguém me pergunte. Não é apoio. É posicionamento.
🦸♂️ O surgimento do herói improvável Então acontece o momento mais aguardado: o nascimento do protagonista retroativo. O docente não apenas participou… Ele idealizou, pensou, inspirou, quase fundou a alfabetização como conceito abstrato. Pouco importa que sua atuação concreta sempre tenha orbitado longe da alfabetização inicial. Na lógica narrativa da reunião, o passado é maleável, e a memória institucional sofre de lapsos seletivos. Aqui vemos um fenômeno clássico da psicologia organizacional: 👉 apropriação simbólica de processos coletivos.
📊 O IDEB, esse espelho narcísico
Os números aparecem. E, como todo número em reunião, eles não falam sozinhos — alguém fala por eles. Segundo o discurso: os alunos chegam “sem saber nada”; o milagre acontece em sala; o resultado… bem, o resultado tem nome (ainda que não se diga em voz alta). Curiosamente, o mesmo discurso “compreende” as dificuldades das professoras alfabetizadoras. Uma compreensão elegante, educada, porém sem partilha real de mérito. É o famoso: “Eu reconheço vocês… mas os números me reconhecem mais.”
🐕 O aviso prévio: antes que alguém “rosne” Aqui, a linguagem trai o inconsciente. Ninguém fala em “rosnar” se não se sente cercado. Ninguém se antecipa à crítica se não a espera. E ninguém usa metáfora animal sem revelar tensão primitiva. Esse é o ponto em que a reunião deixa de ser pedagógica e se torna territorial.
🎀 O laço final: elogiar para selar
Por fim, o discurso se fecha como convém: elogio à coordenação, elogio à gestão, elogio às mudanças “que estão sendo vistas”. É o movimento clássico de amortecimento retórico: diz-se o que precisava ser dito; cria-se ruído; e encerra-se com harmonia verbal, ainda que o ambiente esteja tudo menos harmônico.
🧠 Leitura psicológica do episódio
O que se viu ali não foi um debate pedagógico. Foi: disputa por reconhecimento simbólico; construção de alianças discursivas; defesa antecipada de reputação; personalização de resultados coletivos; e uma pedagogia usada como pano de fundo decorativo. Nada disso é raro. Nada disso é excepcional. E quase tudo isso acontece exatamente assim em escolas “por aí”.
🧾 Moral não declarada da reunião
Quando a escola deixa de falar de alunos para falar de egos, quando o IDEB vira espelho e a alfabetização vira troféu, o que se ensina ali… não está no currículo.