A FÁBULA DO MENSAGEIRO E OS GUARDIÕES DO PORTÃO
Sob a regência de Hermes, Têmis, Atena, Mnemósine e Nêmesis
🏰 Havia, nos confins onde o tempo se dobra sobre si mesmo, uma Cidadela erguida para proteger os Pequenos Caminhantes — aqueles que ainda não haviam completado sua jornada rumo à compreensão do mundo. A Cidadela, com suas torres de promessas e seus muros de responsabilidade, fora construída sob juramento solene: jamais negar amparo, jamais fechar os olhos diante da fragilidade.
📜 Nessa Cidadela, cada servidor tinha uma função sagrada. Havia os Guardiões do Portão, os Escribas da Rotina e os Arautos do Saber. E havia, entre todos eles, um Mensageiro. Sua função era simples: escutar. Ele não possuía autoridade para conceder ou negar — mas possuía algo que os Guardiões haviam esquecido: a capacidade de enxergar a dignidade em cada súplica.
🤒 Certa manhã, uma mulher chegou ao portão com um Pequeno Caminhante febril e enfermo. Ela não pedia entrada, apenas entregava o pergaminho da ausência. Mas fez dois pedidos humildes: que enviassem tarefas para que o filho não se sentisse esquecido e que lhe entregassem a lembrança da Festa das Mães que ele próprio havia moldado.
🗣️ O Mensageiro levou os pedidos. A primeira Guardiã o mandou ao Arauto. O Arauto estava ocupado. A Coordenadora dos Caminhos, com a frieza de quem lê regulamentos em vez de rostos, decretou: “Não há necessidade de envio de atividades”. Quanto à lembrança, o pedido foi passado adiante sem força, perdendo-se no descaso.
🎭 O Mensageiro cumpriu seu papel, mas nos corredores escuros da Cidadela, nasceram as palavras de escárnio. Zombavam da preocupação materna, ridicularizavam o objeto moldado pelo filho. E os Guardiões, que deveriam conter a crueldade, permaneceram em silêncio por escolha.
⚖️ O Mensageiro, movido por Nêmesis, registrou os fatos com a clareza de Atena. Sugeriu uma escuta mais empática. Mas em Cidadelas onde a ética é opcional, a verdade é traição. O Mensageiro foi convocado para julgamento, acusado de “ultrapassar funções” por não aceitar o silêncio cúmplice.
🚶 O Mensageiro foi afastado. Não por incompetência, mas por lembrar à Cidadela que seu juramento era sagrado. Ele percebeu que não perdeu nada: não se perde dignidade ao recusar a cumplicidade com o erro.
📖 Hoje, ele conta histórias fora dos muros. Histórias sobre sistemas que esqueceram sua essência e sobre a importância de registrar a injustiça. Esta fábula não foi feita para ninar consciências, mas para acordar gigantes.
🔔 Epílogo: Não foi o Mensageiro que falhou. Foi a Cidadela. A verdadeira medida de uma instituição está nas migalhas de dignidade que nega quando ninguém está olhando.
🖋️ Preparação, curadoria simbólica e análise investigativa: Professor Théo Oliveira
A Fábula do Mensageiro e os Guardiões do Portão


